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Enchentes trazem riscos à saúde e divergências nas recomendações de medicamento para leptospirose

Reportagem de Eduarda Wisniewski e Felipe Teixeira - Laboratório de Jornalismo - Famecos/PUCRS


Pessoas sendo socorridas das enchentes na Av. Ceará em Porto Alegre | Foto: Sofia Villela


Por conta das enchentes que afetaram 414 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul nos últimos dias, pessoas que tiveram contato direto com água e lama contaminadas, entulhos, esgotos, foram expostas a riscos à saúde como a leptospirose. Com isso, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Porto Alegre emitiu um alerta sobre o risco de contaminação da doença. Quanto à prevenção, um especialista da área de infectologia ouvido pelo Lab J explica que a quimioprofilaxia deve ser utilizada como método para auxiliar quem esteve em contato com as águas das enchentes por longos períodos ou ingeriu água contaminada.


A leptospirose é uma doença infecciosa causada por uma bactéria presente na urina de ratos e de outros animais. Ela é transmitida por água contaminada e pelo contato com a pele, principalmente se houver algum arranhão ou ferimento, que são muito comuns nesse tipo de desastre. A doença causa febre, dor de cabeça e dores no corpo alguns dias após o contato com a água contaminada, e é altamente recomendado que as pessoas procurem atendimento médico se apresentarem estes sintomas.


Já as enchentes não são novidade para os gaúchos, pois em setembro de 2023 também houve fortes chuvas provocadas pela passagem de um ciclone extratropical que causaram alagamentos severos em mais de 50 cidades do Estado. Por conta desse episódio, a Secretaria Estadual da Saúde divulgou um balanço com 1.044 casos de leptospirose registrados no período de janeiro a agosto de 2023. Isso mostrou um aumento de 30% de casos de da doença em relação ao mesmo período de 2022, que teve 805 situações contabilizadas.


De acordo com a Secretaria Estadual da Saúde (SES), episódios de enchentes tendem a causar um aumento da procura de serviços médicos devido a infecções por leptospirose. A Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre garante que não há risco de colapso na rede de saúde municipal por conta de futuros casos da doença, pois os hospitais estão funcionando normalmente, exceto o Hospital Mãe de Deus, que precisou ser evacuado. Os procedimentos eletivos foram suspensos também para dar maior atenção em eventuais necessidades dos atingidos pelas enchentes. Entretanto, para o médico infectologista e professor da PUC do Rio Grande do Sul, Diego Falci, há sim uma espera de aumento expressivo de casos por leptospirose na região, ele ainda salienta que, “os hospitais devem sofrer com essa sobrecarga”.


Quanto a prevenção da doença, a SMS de Porto Alegre publicou um alerta sobre o risco de contaminação pela leptospirose, que diz que não há evidências científicas conclusivas sobre os benefícios e riscos de uso de remédios através da quimioprofilaxia para um grande contingente populacional exposto ao risco de contaminação por ocasião de desastres climáticos. Porém, existe uma divergência deste comunicado com um outro alerta emitido pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul, que recomenda o uso de quimioprofilaxia para casos de leptospirose, a partir de consulta médica, inclusive passando orientações sobre a dosagem de consumo.


Falta de um sistema de drenagem eficiente contribui para os alagamentos | Foto: Sofia Villela


Acumulo de água suja nas ruas de Porto Alegre | Foto: Sofia Villela


A quimioprofilaxia é um método de prevenção de doenças infecciosas, que envolve o uso de medicamentos para reduzir riscos de infecções, no caso da leptospirose, é recomendado, segundo a Associação Brasileira de Infectologia (ASB), o uso dos antibióticos doxiciclina ou da azitromicina. Essas medicações, ainda de acordo com a Associação, só poderão ser ingeridas por pessoas que tiveram exposições constantes na água das enchentes, principalmente sem os equipamentos de proteção, como botas de borracha, blusas de mangas compridas, calças e luvas. Mas para Diego Falci “todo medicamento implica em riscos”, e com esses não seria diferente. Com isso, a doxiciclina pode ser responsável por efeitos colaterais, como sensibilidade ao sol, náuseas, vômitos, diarréia, já a azitromicina por distúrbios gastrintestinais, aumento de enzimas hepáticas, rash cutâneo e fadiga.


Mas qual orientação seguir? Segundo Diego, a recomendação do Governo do Estado, vem de uma nota técnica elaborada em conjunto com a Sociedade Brasileira de Infectologia e a Sociedade Gaúcha de Infectologia, baseada em uma série de argumentos científicos que orientam o uso da quimioprofilaxia para a leptospirose. “A questão principal é para quem essa medicação será indicada, e definitivamente não é para qualquer pessoa que teve contato com a enchente”, disse o Falci. “A nota se refere especificamente a pessoas de alto risco, ou seja, aquelas pessoas que têm muito contato com a água, as que ingerem e a socorristas que ficam mergulhados por muito tempo. Sem dúvida que esses estão sob maior risco”, completou o especialista.


O infectologista ainda diz que em relação a esse aspecto ligado a uma enchente histórica em solo gaúcho, as evidências científicas quanto ao uso de tratamentos e medicações para infecções são ainda muito frágeis, e que não existem muitos estudos especificamente sobre essa situação. “Sem dúvida é uma zona de conhecimento não consolidado sobre isso”. O médico também explica a diferença das notas de orientações da Secretaria de Saúde de Porto Alegre, em relação a do Governo gaúcho. “A nota da prefeitura está seguindo uma orientação mais antiga do Ministério da Saúde, mas o comunicado do Governo do Estado está seguindo a orientação mais recente da pasta”, mencionou Falci. “Evidente que precisa haver um alinhamento entre as partes. Acho que em breve a gente deve ter um posicionamento oficial do Ministério da Saúde sobre isso, pois esta medicação não é indicada para todos e não deve ser usada por toda e qualquer pessoa”. Já sobre a dosagem e as instruções das notas, Diego diz que são dedicadas exclusivamente para orientação dos profissionais e instituições de saúde que vão fazer a prescrição desses medicamentos. “O comunicado deve servir de orientação para os profissionais de saúde, que lendo vão saber para quem eles devem prescrever a quimioprofilaxia”.


Pessoas se retirando de local alagado em Porto Alegre | Foto: Sofia Villela


Salvamento ocorre de barco nas ruas da capital gaúcha | Foto: Sofia Villela


Socorristas preparam barcos para iniciar os salvamentos | Foto: Sofia Villela


Em contato ao Lab J, o Ministério da Saúde confirmou que através de um alinhamento do Governo Federal, Ministérios e o Governo Estadual do Rio Grande do Sul, a autorização do uso emergencial da quimioprofilaxia como tratamento para leptospirose é recomendada, porém, esse direcionamento se dá por tempo determinado e exclusivamente devido à situação extrema que se encontra o Estado, em vista que o Governo Federal não aconselha a utilização desse método de tratamento em outras situações. O Ministério ainda reforça que é importante a população entender que essas notas de esclarecimento sobre o tratamento contra a doença, são direcionadas somente aos profissionais da saúde habilitados.


A Secretaria de Saúde do Estado informa ainda que está em contato com várias empresas farmacêuticas que vão doar medicamentos, entre eles os antimicrobianos, especialmente, os necessários para os casos suspeitos de leptospirose. Além dos medicamentos já enviados pelo Ministério da Saúde. A distribuição será feita dentro da rotina de distribuição da SES, seguindo rotas trafegáveis, pois muitos trechos de rodovias ainda estão interditadas em consequência das enchentes no RS.


Eduarda Wisniewski e Felipe Teixeira são estagiários no Laboratório de Jornalismo da Escola de Comunicação, Artes e Design - Famecos da PUCRS.


As fotos da reportagem são de Sofia Villela, aluna do curso de Publicidade e Propaganda da Famecos.

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